A hora de homenagear é agora!

Desde criança, ouvia da minha mãe histórias dela com a minha avó, histórias que me deixavam pensativa: "como pode existir alguém que não ama a minha mãe? ela é tão demais!".

 

Um dia, depois de muita insistência da minha mãe, minha avó resolveu nos visitar, e fiquei ansiosa por dias, já que eu nunca tive uma avó que pudesse ver meus desenhos, ver como eu era (a minha avó por parte de pai era deficiente visual e eu demorei um bom tempo para entender que ela não podia ver meus desenhos). Minha avó chegou, ficou alguns dias, partiu e eu nunca recebi um abraço da minha avó. Nem um elogio aos meus desenhos. Tudo que ouvi era que eu falava demais e era uma criança mimada. Abri mão, e assim seguimos: nunca mais achei que ela tivesse que me amar, nem eu a ela. Ficamos quites.

 

Do outro lado, minha mãe nunca desistiu da minha avó, apesar da personalidade fortíssima daquela senhorinha magrela com cara ranzinza. Mandava cartas, fotos, fazia ligações. Quando minha mãe voltou a morar em Ubatuba, morou no fundos do quintal da minha avó e pagava aluguel. Ela queria estar ali, de qualquer jeito, nem que fosse pagando. De alguma forma, ela esperava ouvir da minha avó aquela famosa frase de três palavrinhas…

 

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Quando minha avó adoeceu muito, no começo deste ano, minha mãe se dedicou inteiramente a ela. Dava comida, banho, cuidava da casa, deixava de sair muitas vezes com receio que minha avó precisasse dela, e que talvez os outros não dessem conta. E levava bronca, pra variar. Ficou no hospital, dormiu ao lado da minha avó numa cadeira de plástico. Na sua voz, um misto de tranquilidade e aflição. Minha avó se foi.

 

Não é necessário nem nunca vai ser você se esforçar a amar alguém. Mas se você ama, a hora de fazer com que saibam é agora. Nunca espere alguém partir para prestar homenagens. Eu acho que minha mãe fez a parte dela, deu o recado, E EM VIDA da minha avó. Ignorou qualquer tipo de orgulho, de memória ruim, de vaidade. Sei que é muito comum as pessoas quererem visitar e prestar homenagens quando a pessoa está muito debilitada, e há quem acredite em vida melhor após essa, mas e se essa for nossa única chance? E se essa for nossa única passagem? E se não existir o outro lado?

 

E eu, sem querer, ganhei um presente da minha avó: o fortalecimento da esperança que um filho pode amar a sua mãe independente de qualquer coisa…

 

ps: resolvi escrever este texto principalmente por ter achado muito legal essa história.

 

  • Natalia

    Poxa Rê, que história linda viu! Meus avós também deram MUITO trabalho. Os pais do meu pai partiram e quase ninguem sentiu falta (com enfase no meu pai). Eles eram bem crueis e tal. Mas meus pais nunca correram atras. Sua mãe tem que amar muito sua vó mesmo, porque olha... É dificil ne.

  • Dani Brito

    Re, vc aprendeu quando criança algo que tento aprender até hoje: achar que as pessoas por causa de laços de consanguinidade devem nos amar. Fiquei bastante emocionada com a postura e dedicação da sua mãe. Ela soube amar incondicionalmente, a despeito de todas as coisas. Lindo post. Beijo

  • Pamela Ribeiro

    Nossa, que emocionante este post. Penso de certo modo como você, apesar dos pesares, acredito que não devemos agir da mesma forma que as pessoas agem com a gente, a vida é uma só, o mais importante é estar do lado de que amamos sempre, em cada momento. Minha vó não era parecida com a sua, demonstrava bastante o que sentia pelos filhos, e quando ela se foi, percebi que minha mãe ficou bem sem chão, e se culpava bastante por não ter estado com ela mais vezes, é difícil falar sobre essas coisas... Enfim, lindo post.

  • Dayane

    Nossa Rê, chorei, que coisa! Amor lindo esse que dá sem nada exigir em troca. Eu com meu orgulho me senti tão pequena, pois sou incapaz de demonstrar amor pra quem me ignora. Pena sua avó ter sido essa pessoa para sua mãe e para você, mas a sua mãe com certeza está de consciência limpa, pois não desistiu da família. Pode ser sim que sua avó tenha reconhecido isso, mas talvez por orgulho (como eu), não soube como recuperar o tempo perdido.

  • Paula A.

    Teu desabafo é uma coisa que me identifico muito, Rê. Nunca fui fã de homenagens póstumas, como você disse: talvez essa vida seja nossa única chance, então temos que demostrar nosso amor enquanto é possível. E que demonstrações incríveis de amor sua mãe fez <3

  • Yoko

    É um hábito natural do ser humano não é? Só dar amor se puder receber amor em troca... E não condeno, o coração fica machucado quando o amor, qualquer que seja, é unilateral. Mas quando se ama mesmo alguém, além de querer amor, se quer bem. Mãe é mãe sempre. E sua mãe como filha sabe disso. Algumas mães acham que só amor de mãe é incondicional, mas amor de filho também pode ser. (Amo a minha demais nossa.) Como você disse, respeito e amor tem que vir nessa vida, não tem como deixar pra depois; e digo: mesmo que exista o "outro lado". Acredito que cada pessoa tem seus motivos pra ser como é, um conjunto complexo de fatores que só pertence a ela mesma e que ninguém mais vai conhecer por completo. Sendo assim, se amamos aquela pessoa, cabe nós decidirmos se dedicamos a ela a força (sim, sem ser piegas) mais forte de todas, o amor. Ele que é atemporal e, creio eu, não morre nunca. Unido com o perdão então... A vida anda tão dura que a gente esquece dessas coisas e até tem quem ache brega.

  • Carine Gimenez

    Re, chorei. Chorei muito porque sei o que sua mãe sentiu/sente, sei o que ela passou, sei exatamente como é a situação. Nunca tive uma relação das melhores com minha família, sou a "estranha", "diferente", a que não "se encaixa ali". E dói. Muito. Meus pais me ensinaram o que NÃO fazer com meu filho, me fizeram querer ser diferente. Por causa deles sei a mãe que não quero ser. Isso é muito ruim. Sua avó e sua mãe te ensinaram muito. Eu te acho uma pessoa linda, fofa, uma pessoa que admiro muito. E sim, homenagens devem ser feitas em vida. Acredito em vida após a morte, em missão, em resgate. Mas acredito também no aqui e agora, que o hoje é o mais importante e que a vida tem muito valor. Beijão.

  • Cris

    Concordo com você,todos nos precisamos dar valor as pessoas adoráveis,que temos em nossa vida,não tenho a minha linda vozinha a alguns anos,e ela faz muita falta,mas oque me deixa mais triste, não é o fato de ela ter partido e sim se ela saberia o quanto eu amava,por isso falo pra minha irmã todos os dias,o quanto ela poder aproveitar com as pessoas amadas aproveite e ame muito. Beijos

  • Camila Nogueira

    Mesmo acreditando na vida após a morte eu concordo com você, pois acho que homenagens prestadas as pessoas que já se foram não vão alcançá-las no além, é o que eu penso, e sim, acho que devemos demonstrar o nosso amor pela pessoa enquanto ela está viva. Eu sei mais sobre o que você quis passar no post pois conversamos pessoalmente, eu não falei, mas eu concordo sim. Beijo Rê!

  • Loma

    Chorei de verdade, mas também ando muito sensível e emotiva. Sabe, o que a gente pode fazer pelos outros, a gente deve fazer: independente do que os outros façam pela gente. Se a gente tratar todo mundo como nos tratam, seremos apenas mais pessoas egoístas no mundo. Por que não fazer a diferença, né? A sua mãe é minha ídola: esse amor que doa, não tem preço! E cada um demonstra seu amor de sua forma. Tenho certeza que sua avó reconhecia todo os esforço da sua mãe, mas não sabia demonstrar gratidão ou carinho. A gente só não pode se deixar abalar e perder a nossa essência, por causa do orgulho dos que nos rodeiam! Post maravilhoso, Re.

  • Ingrid

    Rê, a história de Fernando e Vovó Nilva é linda. Já visitou a página do facebook? facebook.com/vovonilva O amor deve ser gratificante por si só. Não algo que espera retorno de alguém para se sentir completo. Devemos nos sentir mais humanos por amar. E se aquele a quem amamos não nos é recíproco, podemos agradecer por simplesmente nos fazer experimentar a delícia que é viver o amor.

  • Aninha

    É muito complicado falar dessas coisas... há pessoas que são extremamente fechadas e não conseguem se relacionar bem com as outras, que no fundo, no fundo, ama. Só não consegue demonstrar do jeito certo. Uma pena, pois na maioria dos casos se torna uma pessoa amargurada. Vejo isso na mãe de meu padrinho. Ele faz tudo por ela, e ela não demonstra um pingo de gratidão, muito menos um "eu te amo" para o próprio filho, que provavelmente nunca deve ter escutado isso em sua infância também. É muito triste isso! Quando você ama alguém, precisa falar! Antes que seja tarde, antes que se arrependa e já se passou quase uma vida inteira que poderia ter sido maravilhosa. Mas você aprendeu muito com sua vó Re! Aprendeu a principalmente a não ser como ela, e amar a todos o seu redor e demonstrar o quanto isso é importante. Gratidão com quem você ama é importante extremamente. É uma das melhores formas de demonstrar que o amor é recíproco. Faz bem para a alma, ao coração, à saúde física e mental... e sem contar para a própria pessoa te ama. <3

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