Papo de Vitrola

Minha surdez unilateral – velha surda, não!

É quase regra: assim que conheço alguém, eu logo vou explicando “Sou semi-surda, se eu não te ouvir, já sabe…”.
 
Foram anos de adaptação. Passei boa parte da minha vida ouvindo da minha mãe que nasci surda por conta de “água do parto”. Curiosa desde sempre, e não satisfeita com a história, sempre busquei respostas para minha surdez. Passei por sufocos “normais”, desde bullying (até mesmo de um professor, que disse que a minha dificuldade nas aulas de educação física era uma surdez “psicológica”) na época da escola à quase ser atropelada na rua umas centenas de vezes. Além disso, tenho dificuldade com algumas coisas, por exemplo, saber da onde os sons vem. Provavelmente, se me chamarem do lado esquerdo, olharei pro direito e vice-versa.
 
Recentemente, cansada de responder perguntas básicas que nem eu mesmo sabia as respostas (qual a causa? porque você não usa aparelho? quanto você ouve do lado esquerdo? você não ouve nada MESMO?), resolvi procurar um otorrino e fazer o famoso exame Silvio Santos (audiometria, haha!).
 
Como eu já imaginava, a surdez é total e foi classificada como PROFUNDA. Não há possibilidade de uso de aparelhos nem implante coclear. Minha audição esquerda é relativa a 0. A causa da surdez pode ter sido caxumba, má formação quando eu ainda era um fetinho ou rubéola enquanto minha mãe estava grávida. Em compensação, meu ouvido bom desenvolveu perfeitamente, e segundo o exame, eu ouço até acima do normal com ele. Situação normal quando você tem ausência de algum sentido, os outros restantes vão se adaptando e ficam até superiores.
 

Recentemente, uma candidata ao cargo de analista foi incluída em uma vaga através de uma liminar confirmada pelo STJ, que determina que surdez unilateral (não suprida com uso de aparelhos) também é classificada como deficiência física. 

 

Agora, o que me resta é cuidar muito bem do ouvido que eu ouço, e segundo orientação, observá-lo e examiná-lo anualmente. A fonoaudióloga e o otorrino ficaram abismados quando soube que meus pais nunca haviam me levado no médico, ou feito um acompanhamento, já que se qualquer problema ocorresse com o ouvido bom, eu ficaria definitivamente surda. Além disso, fui alertada a sempre ter os cuidados básicos: evitar sons altos demais, fones de ouvido e cotonetes. A audição é muito importante, então cuidar bem dela é minha prioridade!

 

E um recado meu, especialmente para as mamães e os papais: cuidem muito bem da audição dos seus filhotes. Eles irão agradecer muito no futuro 🙂

 

 
Parece fofoca, mas…

23 Comments

  • saulo junior

    Câmara amplia direitos de pessoas com deficiência auditiva unilateral
    A Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJ) da Câmara dos Deputados aprovou, em caráter conclusivo, proposta que transforma, para todos os efeitos legais, o portador de deficiência auditiva unilateral (perda de audição em um dos ouvidos) em pessoa com deficiência. A medida está prevista no Projeto de Lei 1361/15, do deputado Arnaldo Faria de Sá (PTB-SP). O texto segue para análise do Senado.

    O objetivo é assegurar ao deficiente auditivo unilateral acesso a direitos já assegurados às pessoas com deficiência, como a reserva de vagas em concursos públicos e a Lei de Cotas (8.213/91), que determina a contratação de percentuais variados de pessoas com deficiência por empresas, proporcionalmente ao número de empregados.

    A perda auditiva unilateral, embora constitua uma deficiência auditiva, hoje não se enquadra na definição técnica, que assegura ao deficiente auditivo acesso aos direitos concedidos às pessoas com deficiência.

    Atualmente, o Decreto 5.296/04 restringe a deficiência auditiva à perda bilateral, parcial ou total, de 41 decibéis (dB) ou mais, aferida por audiograma nas frequências de 500 Hz, 1.000 Hz, 2.000 Hz e 3.000 Hz.

    Emenda
    Relator na CCJ, o deputado Rogério Rosso (PSD-DF) defendeu a constitucionalidade e juridicidade do projeto. No mérito, considerou que a alteração na legislação vai ajudar milhares de pessoas com surdez unilateral, uma vez que a ausência de previsão legal expressa as obriga a buscar seus direitos por meio de decisões do Poder Judiciário.

    Uma emenda do relator incluiu no texto a previsão para que a incapacidade ou obstrução de participação plena e efetiva na sociedade possa ser aferida também com base na Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (13.146/15).

    ÍNTEGRA DA PROPOSTA:

    PL-1361/2015
    Reportagem – Murilo Souza
    Edição – Marcelo Oliveira

  • saulo junior

    SOMOS SURDOS UNILATERAIS E QUEREMOS SEU APOIO!
    Você pode nos ajudar votando pela PL através da Câmara dos Deputados, pelo telefone 0800-619619 e online. Diga que é a favor da PL 1361/2015 ! Pelo link http://www2.camara.leg.br/participe/fale-conosco, você pode registrar seu voto selecionando no menu “Selecione o que você deseja comunicar”, marcando a opção Manifestação / Sugestão e no texto escreva “Quero votar favoravelmente ao Projeto de Lei nº 1361/2015.”
    Juntos nós somos +

  • Juliana Amado

    Eu tenho perda bilateral profunda e sou implantada há 6 anos. Nossas histórias são diferentes, porque perdi tudo de uma vez com 1 ano e 8 meses, sou o que chamam de pré-lingual: aquele que perde a audição antes de adquirir linguagem. Tive muito acompanhamento fonoaudiológico e nos primeiros anos, minha mãe teve que ralar para que eu me oralizasse bem. Sou eternamente grata a ela por isso. Graças à oralização, pude estudar em colégio tradicional, prestar vestibular e estudar na UniRio, numa época que cotas só existiam na UERJ. Aliás, eu só consegui ser candidata ao implante já adulta pelo fato de ser oralizada. Quando penso nisso, não tem como eu não ser grata aos meus pais pelas montanhas que eles removeram sobretudo na minha primeira infância.
    Mas não é só isso que eu vejo nas minhas reflexões. Vejo que é essencial acreditar. Perdi a audição nos anos 80, quando ainda não tinha essa febre da internet, então, a visão que meus pais tinham era de um surdo muito limitado. Mas eles acreditaram no potencial deles e no meu também! Acho que isso fez toda a diferença. E para ser franca, nunca senti muito o preconceito na pele.

    Ah, descobri o seu blog hoje. Estou dando uma lida e achei bem interessante! Gostei!

    Beijos.

  • Juliana Amado

    Eu tenho perda bilateral profunda e sou implantada há 6 anos. Nossas histórias são diferentes, porque perdi tudo de uma vez com 1 ano e 8 meses, sou o que chamam de pré-lingual: aquele que perde a audição antes de adquirir linguagem. Tive muito acompanhamento fonoaudiológico e nos primeiros anos, minha mãe teve que ralar para que eu me oralizasse bem. Sou eternamente grata a ela por isso. Graças à oralização, pude estudar em colégio tradicional, prestar vestibular e estudar na UniRio, numa época que cotas só existiam na UERJ. Aliás, eu só consegui ser candidata ao implante já adulta pelo fato de ser oralizada. Quando penso nisso, não tem como eu não ser grata aos meus pais pelas montanhas que eles removeram sobretudo na minha primeira infância.
    Mas não é só isso que eu vejo nas minhas reflexões. Vejo que é essencial acreditar. Perdi a audição nos anos 80, quando ainda não tinha essa febre da internet, então, a visão que meus pais tinham era de um surdo muito limitado. Mas eles acreditaram no potencial deles e no meu também! Acho que isso fez toda a diferença. E para ser franca, nunca senti muito o preconceito na pele.

    Ah, descobri o seu blog hoje. Estou dando uma lida e achei bem interessante! Gostei!

    Beijos.

    • Juliene

      kkkkkkkk afffffsssss A pessoa nem nasceu, nem cometeu pecados e merece ser deficiente? ahh me poupe!!! Que idéia ridícula… De onde tirou isso? Da igreja? Da Bíblia? kkkk Cada ignorante nessa vida. Quando acontecer algo com vc que Deus não permita.. é porque mereceu!!! Cuidado com o que faz viu!!! kkkk Talvez vc pense que antes de nascer vc teria cometido algum pecado!! kkkkk Ai que Hipocrisia meu Deus!!! hahaha

  • Gabriela C.

    eu tive aula de Libras, na faculdade. e a professora deu uma breve conversadinha sobre o nosso ouvido. ela disse que som alto faz mal. e mostrou o volume/frequencia ideal que a gente deve ouvir. sabe som de balada? aquele tom alto? tunz tuntz? hahaha ela falou que é super prejudicial, porque a frequencia é muito acima do normal e que a gente poderia ouvir no máximo 1 hora, e quantas horas ficamos na balada? kkkkkkkkkkkk por isso, com o passar dos anos os ouvidos vao ficando mais sensiveis, mais ou menos isso. ela disse até uma dica, quando voce começar a perceber que numa conversa voce olha pra boca da pessoa, é porq vc ja nao esta ouvindo bem, olhando pra boca voce tenta decifrar mais rapido oq a pessoa diz. é, até que prestei atenção nas aulas dela hahaha e cuide bem dele!

  • Dani Brito

    Re, fiquei impressionada com a semelhança do seu caso, com o do Paulinho. Ele sempre que se apresenta, diz essa frase “Sou semi-surdo, se eu não te ouvir, já sabe…”. Quando adolescente, ele surfava, daí perfurou o tímpano. Fez cirurgia, mas não obteve melhora. Sempre fui muito impaciente com ele. Odeio repetir as coisas…e com ele isso SEMPRE acontece.
    Há poucos meses, ele resolveu retomar o tratamento e refazer os exames. Ele só tem 30% da audição, tb não pode fazer implante coclear…e foi considerado deficiente físico. O pior é que já apresenta perda no outro ouvido. 🙁
    Parei de ficar com raiva de repetir. Fiquei até com remorso.

    Se cuida, mocinha. E que bom que o seu outro ouvido é 100%. =))

    Beijo

    • Mulher Vitrola

      Sério Dani? Nossa, que coincidência! rs. Acho que é a frase resumo, pq quem ouve pouco sabe dos micos: deixar as pessoas chamando/falando sozinha e etc, rs. Então o jeito é avisar antes mesmo, heh. Mas, vou confessar, às vezes finjo que ouço só pra não ter que fazer a pessoa repetir. O problema é que com o marido não funciona, ele já descobriu a cara que faço quando não entendo algo, haha!

      Beijos!

  • Li Garone

    Olha só.. estou com meus exames de audiometria aqui comigo! Hoje tenho consulta com o otorrino para ver a ultima audiometria q fiz na semana passada… a fono me aterrorizou dizendo que eu tenho q usar aparelho 🙁 Como eu nasci assim, não me sinto diferente por não ouvir normal, para mim, eu sou normal ^^ Não faço ideia de como deve ser não ouvir 100% de um lado… eu devo ouvir uns 70% no esquerdo (eu não faço ideia da porcentagem, vou tentar descobrir isso hj)

    O jeito é usar aparelho (no meu caso) e seguir cuidando para não perder a audição boa :/

    bjs!

  • Mulher Vitrola

    Mariana, pois é, eu nunca a tive, mas sinto uma falta danada. Não sei como deve ser ouvir dos dois, mas deve ser muito bom não ficar preocupada em não ouvir o carro já em cima de você, haha!

    Eu sempre cuidei bem da minha outra audição, mas agora que descobri que se perdê-la não terei a outra de nenhuma maneira, cuidarei ainda mais! É mesmo algo muito importante!

    Um beijo,

  • Mariana

    Key, eu não consigo nem imaginar como é não ouvir de um ouvido. Um tempinho atrás eu estava sofrendo horrores com tinido (uma vibração involuntária do tímpano após exposição prolongada a sons muito altos) e tinha de passar a maior parte do tempo de tampões. Sabe aqueles que nego usa quando vai explodir coisas ou quando trabalha em linha de montagem? Esses tampões. Eu vivia a maior parte do tempo no mundo do silêncio e aquilo me incomodava de tal forma que eu achei que fosse enlouquecer. Por causa disso que passei a prestar mais atenção e cuidar melhor da minha audição. Pode até parecer bobagem, mas até já fiz lista com os sentidos que odiaria perder e a audição tá no topo dessa lista. O resto da vida sem ouvir músicas ou a voz das pessoas que amo… Não, eu não ia conseguir viver assim!

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