Amores plastificados

Minha mãe tem mania de carregar tudo na bolsa, eu falo que é a Bolsa do Gato Félix. Enquanto eu, a filha caçula, carrega na bolsa o mínimo necessário – celular, câmera, uma bolsa de coração com apenas um cartão dentro, chaves e cadeado da bicicleta –  minha mãe carrega o mundo, e sem querer, descobri que ela carrega literalmente, a vida dela dentro da bolsa.

 

Enquanto ela retirava algumas coisas ( é assim toda vez que paramos em algum lugar e ela tem que pegar algo: pelo menos 5 coisas saem da bolsa até ela achar o que quer), eu não pude deixar de “curiosar” um papel velho de loteria, plastificado, datado de 09 de novembro de 1986. Eu conhecia aquela letra, nunca me esqueceria dela: era a letra do meu pai, numa espécie de SMS escrita dos dois – uma frase dele, outra dela, como uma conversa num papel casual. Ela disse que era assim, às vezes num papel de pão, num espaço em branco do jornal, na carteira do cigarro. Neste caso, num papel de loteria. Coisa de quem não tinha tempo de verdade…

 

Meu pai já é falecido há alguns anos, minha mãe chegou a ser casar de novo, infelizmente não foi tão feliz. Mas guardou o amor, plastificado. Não sei ela teve sorte no jogo, mas descobri que dá para juntar os dois e levar a lembrança da sorte do amor por aí, como um trevo de quatro folhas dentro da carteira…

 

bilhete-de-amor

 

 

“Eu quero a sorte de um amor tranquilo
Com sabor de fruta mordida
Nós na batida no embalo da rede
Matando a sede na saliva”

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