{"id":16722,"date":"2023-04-05T07:57:09","date_gmt":"2023-04-05T10:57:09","guid":{"rendered":"https:\/\/mulhervitrola.com.br\/blog\/?p=16722"},"modified":"2023-04-05T07:57:14","modified_gmt":"2023-04-05T10:57:14","slug":"cem-cafezinhos-antes-do-sol-nascer","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mulhervitrola.com.br\/blog\/cem-cafezinhos-antes-do-sol-nascer\/","title":{"rendered":"Cem cafezinhos antes do sol nascer"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-justify wp-block-paragraph\">Antes dos meus pais terem o bar, minha m\u00e3e trabalhou muitos anos como camel\u00f4 na passarela debaixo da esta\u00e7\u00e3o de trem do Gramacho, um bairro aqui de Duque de Caxias, o mesmo do famoso document\u00e1rio <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Lixo_Extraordin%C3%A1rio\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">&#8220;Lixo Extraordin\u00e1rio&#8221;<\/a>. Ela acordava muito antes do que qualquer pessoa que trabalha muito cedo acordava, e quando crian\u00e7a eu acreditava que minha m\u00e3e era a \u00fanica acordada naquele hor\u00e1rio em todo o planeta. Ela preparava cerca de 15 garrafas t\u00e9rmicas de caf\u00e9 e chocolate quente comportadas em duas grandes bolsas de nylon super refor\u00e7ado.<br><br>De segunda a sexta ela pegava o \u00f4nibus, soltava na esta\u00e7\u00e3o, subia a passarela para pegar exemplares para revenda dos jornais &#8220;O Povo&#8221;, &#8220;O Globo&#8221; e &#8220;O dia&#8221; e terminava de montar sua barraca: uma mesinha, que sequer cobertura tinha \u2013 a cobertura era a pr\u00f3pria passarela \u2013 e j\u00e1 estava devidamente a postos bem antes que a maior parte dos trabalhadores come\u00e7assem a circular. Logo o sil\u00eancio da madrugada acabava dando espa\u00e7o a muito vuco-vuco na esta\u00e7\u00e3o, sons de passos r\u00e1pidos, de bolsas, de jarg\u00f5es de vendedores e de cheiro de p\u00f3s-barba, Derby e Charisma misturados a outros t\u00edpicos de uma esta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"620\" height=\"411\" src=\"https:\/\/mulhervitrola.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/cafezinho-da-madrugada-mulhervitrolaPrancheta-2-620x411.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-16770\" srcset=\"https:\/\/mulhervitrola.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/cafezinho-da-madrugada-mulhervitrolaPrancheta-2-620x411.jpg 620w, https:\/\/mulhervitrola.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/cafezinho-da-madrugada-mulhervitrolaPrancheta-2-300x199.jpg 300w, https:\/\/mulhervitrola.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/cafezinho-da-madrugada-mulhervitrolaPrancheta-2-768x509.jpg 768w, https:\/\/mulhervitrola.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/cafezinho-da-madrugada-mulhervitrolaPrancheta-2.jpg 980w\" sizes=\"(max-width: 620px) 100vw, 620px\" \/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"has-text-align-justify wp-block-paragraph\">Lembro das poucas vezes que fui acompanh\u00e1-la, ficava empolgada e mal conseguia dormir na noite anterior, ansiosa para ser a segunda pessoa do planeta acordada, junto da minha m\u00e3e. Era um sil\u00eancio absurdo nas primeiras horas da madrugada, fria, como se algo estivesse sempre prestes a acontecer. As pessoas que trabalham na madrugada eram focadas, por\u00e9m visivelmente resignadas. Eram divertidas, iam gradativamente ficando comunicativas, como se respeitassem aquele despertar antinatural. Eu gostava daquele clima e me sentia segura e acolhida, parecia uma fam\u00edlia numerosa. Minha m\u00e3e me apresentava com orgulho aos seus v\u00e1rios amigos, intermin\u00e1veis, uma rotatividade sem fim, sempre tinha algu\u00e9m para conhecer.<br><br>Minha m\u00e3e e os amigos brincavam muito entre si no per\u00edodo do trabalho, acho que era uma forma de se manterem despertos. Rolava um senso de coletividade, todo mundo tomava conta de todo mundo: &#8220;Roberta, olha aqui minha barraca? Vou ali no bar e j\u00e1 volto&#8221;. Minha m\u00e3e tinha esse apelido de \u201cRoberta\u201d por ser f\u00e3 de Roberto Carlos e l\u00e1 era como todos a chamavam, parecia que eu conhecia uma segunda identidade de minha m\u00e3e. Ali n\u00e3o tinha cara torta, n\u00e3o tinha coment\u00e1rio maldoso, n\u00e3o tinha julgamentos nem perguntas. todo mundo estava ali por um motivo impl\u00edcito, todo mundo tinha uma hist\u00f3ria densa de vida e isso bastava.<br><br>Eu gostava muito dos amigos da minha m\u00e3e. O Francisco era um amigo de anos, a ajudou em muitos momentos e fazia o melhor doce de mam\u00e3o verde que j\u00e1 comi na vida. Havia tamb\u00e9m uma senhora muito idosa, que morava numa das habita\u00e7\u00f5es pr\u00f3ximo ao aterro sanit\u00e1rio, gostava muito de mim e uma vez me deu brincos muito bonitos, dourados com detalhes e uma mi\u00e7anga turquesa bel\u00edssima, eu agradeci e fiquei sem gra\u00e7a de dizer que ainda n\u00e3o possu\u00eda furos na orelha (fui us\u00e1-los j\u00e1 na adolesc\u00eancia, mas infelizmente ela j\u00e1 havia falecido).<br><br>No tempo que ficava ali com minha m\u00e3e, al\u00e9m de tomar o chocolate quentinho que ela fazia com tanta dedica\u00e7\u00e3o, podia ir ao jornaleiro pegar os gibis que quisesse &#8220;que depois ela acertava&#8221;. Era uma banca de revistas usadas, eu era a fan\u00e1tica por Turma da M\u00f4nica e essa banca tinha muita fartura de edi\u00e7\u00f5es anteriores. O dono, inclusive, um barbudo super boa pra\u00e7a de \u00f3culos aviador e cabelos lisos, me viu crescer e guardava edi\u00e7\u00f5es de Almanac\u00e3o intactos para mim. Uns anos depois, migrei de Turma da M\u00f4nica para revistas Capricho e Car\u00edcia e ele continuou com o mesmo gesto, sempre guardando num cantinho as revistas rec\u00e9m garimpadas. Depois nunca mais o vi.<br><br>Minha m\u00e3e tinha costume de levar para casa um exemplar de cada jornal, mas n\u00e3o pod\u00edamos ler o &#8220;O Povo&#8221;. Era um jornal com muitas not\u00edcias sobre viol\u00eancia. Tinha folhas numa tonalidade de rosa, por algum motivo que desconhe\u00e7o, e fotos de capa com apenas o mais cru da viol\u00eancia: pessoas baleadas e\/ou mutiladas, entre outras coisas que aconteciam em diversas \u00e1reas do Rio de Janeiro. Passei a burlar a regra e os ler escondido, por pura comich\u00e3o, e passei a devanear universos entre a Rua do Limoeiro e a realidade nua da cidade onde eu morava.<br><br>Anos depois, quando tive oportunidade de participar de um projeto parceiro para a revista Capricho, coloquei meus p\u00e9s num bairro considerado nobre pela primeira vez na vida e senti um contraste muito acima que meus privil\u00e9gios poderiam imaginar. Mesmo hoje em dia considerando ter sido uma experi\u00eancia pl\u00e1stica, \u00e9 um momento que recordo com orgulho. Mas nada me impactou e possu\u00eda tantas camadas como as madrugadas aquecidas a chocolate quente na esta\u00e7\u00e3o do Gramacho&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Antes dos meus pais terem o bar, minha m\u00e3e trabalhou muitos anos como camel\u00f4 na passarela debaixo da esta\u00e7\u00e3o de trem do Gramacho, um bairro aqui de Duque de Caxias, o mesmo do famoso document\u00e1rio &#8220;Lixo Extraordin\u00e1rio&#8221;. Ela acordava muito antes do que qualquer pessoa que trabalha muito cedo acordava, e quando crian\u00e7a eu acreditava&#8230;<a class=\"btnReadMore\" href=\"https:\/\/mulhervitrola.com.br\/blog\/cem-cafezinhos-antes-do-sol-nascer\/\">Leia mais<i class=\"fa fa-long-arrow-right\"><\/i><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":16771,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[122],"tags":[],"class_list":["post-16722","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-papo-de-vitrola"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/mulhervitrola.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16722","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/mulhervitrola.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/mulhervitrola.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mulhervitrola.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mulhervitrola.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=16722"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/mulhervitrola.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16722\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":16773,"href":"https:\/\/mulhervitrola.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16722\/revisions\/16773"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/mulhervitrola.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media\/16771"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/mulhervitrola.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=16722"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/mulhervitrola.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=16722"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/mulhervitrola.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=16722"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}