{"id":1817,"date":"2013-09-20T22:42:25","date_gmt":"2013-09-20T22:42:25","guid":{"rendered":"http:\/\/mulhervitrola.com.br\/?p=1817"},"modified":"2013-09-25T12:51:41","modified_gmt":"2013-09-25T12:51:41","slug":"violencia-obstetrica-depoimento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/mulhervitrola.com.br\/blog\/violencia-obstetrica-depoimento\/","title":{"rendered":"Viol\u00eancia obst\u00e9trica: O seu parto \u00e9 secreto?"},"content":{"rendered":"<p>Relatar o parto sempre me pareceu algo muito complexo. Devido \u00e0s emo\u00e7\u00f5es do momento, devido \u00e0 detalhes que voc\u00ea talvez prefira n\u00e3o citar (por falta de necessidade ou receio de quem escuta). O parto sempre me pareceu algo secreto, muito pessoal, muito resumido. E sempre me perguntei, desde crian\u00e7a, o qu\u00e3o complexo deveria ter um beb\u00ea. Como \u00e9 poss\u00edvel &#8220;a\u00ed nasceu, fim&#8221;? Qual o come\u00e7o dessas horas que marcam para sempre a vida de uma mulher? Como resumir tanto uma hist\u00f3ria t\u00e3o importante, sen\u00e3o a mais profunda experi\u00eancia na vida de uma mulher? O relato a seguir \u00e9 longo, mas h\u00e1 tempos que eu sinto vontade de faz\u00ea-lo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Bastou eu ter meu primeiro filho para entender. Aos 20 anos de idade, embora ainda jovem para ter um filho, eu estava preparada. Pesquisei, perguntei. Eu sabia o que queria, mas nem de longe sabia o que me aguardava.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Sem prematuridade, Pedro deu sinais num s\u00e1bado \u00e0s 4 da manh\u00e3, no dia 10 de setembro de 2005 que cansou de ficar onde estava. Foi uma noite de ins\u00f4nia. Levantei, fui ao banheiro e me deparei com mais \u00e1gua saindo do meu corpo do que jamais imaginei. Parecia tudo combinado entre n\u00f3s! Tranquilamente, chamei o pai dele e disse que havia chegado a hora de irmos ao hospital. Me levaram \u00e0 uma famosa maternidade na cidade de <strong>Xer\u00e9m<\/strong>, considerada refer\u00eancia. Estava t\u00e3o ansiosa que esqueci meu sobrenome e at\u00e9 a minha idade na hora de preencher a ficha da recep\u00e7\u00e3o. <strong>Fui orientada a entrar num corredor, vazio e gelado, sem meus acompanhantes. Sozinha. E a\u00ed o pesadelo come\u00e7ou.<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Entrei numa sala escura, onde uma profissional iria me examinar. Subi numa maca e fui orientada a colocar as pernas em posi\u00e7\u00e3o ginecol\u00f3gica. E mais \u00e1gua de parto sai. A mo\u00e7a n\u00e3o pensou duas vezes: em tom r\u00edspido, disse: &#8220;<em><strong>EU N\u00c3O ACREDITO<\/strong> que voc\u00ea sujou meus sapatos. <strong>EU N\u00c3O ACREDITO<\/strong>! Era s\u00f3 o que me faltava! Voc\u00ea s\u00f3 pode ter feito de prop\u00f3sito!<\/em>&#8220;. N\u00e3o sei se voc\u00eas sabem, mas mulheres gr\u00e1vidas ADORAM sair por a\u00ed sujando sapatos das pessoas com \u00e1gua do parto. \u00c9 uma atividade pouco explorada, por\u00e9m emocionante.<\/p>\n<p>Claro que n\u00e3o entendi nada. Fiquei confusa, perdida, envergonhada. Mas a ansiedade foi superior \u00e0 dar ouvidos ao que aquela mulher dizia. E claro, eu n\u00e3o esperava um tratamento VIP numa maternidade p\u00fablica. Mal sabia eu o que me aguardava.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>N\u00e3o lembro como, fui guiada \u00e0 sala onde as gr\u00e1vidas ficam antes de entrar em trabalho de parto. E d\u00e1-lhe espetadas, d\u00e1-lhe toque. Na sala, haviam mais duas mulheres al\u00e9m de mim. E uma estagi\u00e1ria muito boazinha, que me dizia que eu poderia tomar banho quente se quisesse. E uma outra, que vinha checar o famoso remedinho na veia, e dizia &#8220;D\u00e1 pra voc\u00ea ficar quieta e parar de arrancar isso?&#8221; J\u00e1 era hor\u00e1rio de almo\u00e7o e eu estava h\u00e1 mais de 12 horas sem comer e umas 20 horas sem dormir. Pedro ainda n\u00e3o tinha dado sinal que queria sair.<strong> Uma outra enfermeira entrou no lugar da estagi\u00e1ria boazinha e trouxe um r\u00e1dio, desses pequenos, port\u00e1teis. Colocou numa r\u00e1dio de pagode, num volume mais alto do que eu costumo ouvir nos dias de faxina aqui em casa.<\/strong> Cansada, com fome e incomodada com o som alto, perguntei se ela n\u00e3o poderia abaixar o volume. Furiosamente, ela desligou o r\u00e1dio e saiu da sala. Ficamos sozinhas: as duas mulheres e eu.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Como \u00e9 de se esperar numa situa\u00e7\u00e3o que tudo encaminha para o desastre, uma das mulheres entrou em trabalho de parto. Na minha frente. N\u00e3o haviam enfermeiros. <strong>E antes dela terminar a frase &#8220;Eu acho que vai nas&#8230;&#8221;, eu vi um parto assim, pela primeira vez, ao vivo, sem ser pelo canal da Discovery. Eu estava chocada e emocionada<\/strong>. Ao mesmo tempo, um desespero bateu: e se eu ficar aqui sozinha? E se n\u00e3o conseguir chamar ajuda? E se algo est\u00e1 errado, e se meu filho morrer?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\u00a0<img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-1823\" alt=\"Screenshot_10\" src=\"http:\/\/mulhervitrola.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/Screenshot_10.png\" width=\"648\" height=\"435\" srcset=\"https:\/\/mulhervitrola.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/Screenshot_10.png 648w, https:\/\/mulhervitrola.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/Screenshot_10-300x201.png 300w, https:\/\/mulhervitrola.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/Screenshot_10-620x416.png 620w, https:\/\/mulhervitrola.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/Screenshot_10-150x101.png 150w\" sizes=\"(max-width: 648px) 100vw, 648px\" \/><br \/>\n<a href=\"http:\/\/carlaraiter.com\/1em4\/galeria\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><strong>Retratos da Viol\u00eancia Obst\u00e9trica<\/strong><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Pouco tempo depois, a outra mo\u00e7a tamb\u00e9m entrou em trabalho de parto. E eu fiquei sozinha na sala. J\u00e1 eram quase 4 da tarde e nada do Pedro. Mais enfermeiros e a frase apareceu &#8220;&#8216;Vamos adiantar isso logo? Vamos fazer for\u00e7a, o m\u00e1ximo que voc\u00ea puder&#8221;!. Com a for\u00e7a, gemidos. E n\u00e3o, n\u00e3o eram gritos, por mais que eu soubesse que poderia faz\u00ea-lo se quisesse. <strong>Um enfermeiro segurou forte em meu ombro, olhou para mim e disse &#8220;Acho bom voc\u00ea n\u00e3o gritar. Aqui n\u00e3o tem ningu\u00e9m gritando com voc\u00ea, tem?<\/strong>&#8220;. Gritar? Mo\u00e7o, eu s\u00f3 tenho vontade de chorar desde que entrei aqui. N\u00e3o perderia tempo gritando, se eu posso berrar, e na altura do campeonato, totalmente justific\u00e1vel.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Na hora da sala de parto, a minha maior surpresa: meu parto seria assistido por pelo menos 16 olhares de jovens estagi\u00e1rios. E tamb\u00e9m com um enfermeiro subindo em cima da minha barriga, forma utilizada para &#8220;<a href=\"http:\/\/www.euqueropartonormal.com.br\/eqpn\/tag\/kristeller\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">ajudar a crian\u00e7a a sair<\/a>&#8220;. <strong>Eu n\u00e3o sei dizer o que mais me incomodava. E nem o que mais do\u00eda, mas garanto: o parto era o de menos ali.<\/strong>\u00a0J\u00e1 ouviu falar em episiotomia? \u00c9 um processo de incis\u00e3o entre a vagina e o \u00e2nus, para &#8220;facilitar&#8221; o parto. Ningu\u00e9m pergunta se voc\u00ea quer: somente fazem. Eu levei pontos, e como se n\u00e3o bastasse, ouvi da obstetra: &#8220;ops, desculpa&#8230; costurei errado, aguenta a\u00ed que vou desfazer e fazer de novo&#8221;. Afinal, o que s\u00e3o pontos feitos e desfeitos? Sossegad\u00edssimo&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Passei mais 4 dias nesta maternidade, pois o Pedro teve icter\u00edcia. Chorei dia e noite. Quando parentes e amigos foram me visitar, chorei ainda mais. Implorei para que me levassem junto com eles, embora sabendo que isso n\u00e3o dependia deles. \u00c0 noite, a coisa s\u00f3 piorava: as enfermeiras disputavam quem seria mais cruel com as m\u00e3es. Acolhi o Pedro na minha cama, apoiei o ber\u00e7o na lateral e fiz uma esp\u00e9cie de barreira com mantas e minha bolsa para que ele n\u00e3o ca\u00edsse. <strong>Sempre mantive meus filhos fora do ber\u00e7o e o mais pr\u00f3ximo de mim poss\u00edvel, \u00a0pois como alguns sabem, tenho defici\u00eancia auditiva, e dificulta muito ouvir sons mais distantes<\/strong>. Eu n\u00e3o conseguia dormir \u00e0 noite, e j\u00e1 estava no auge m\u00e1ximo do cansa\u00e7o. Adormeci e acordei com uma enfermeira me sacudindo e dizendo &#8220;Se a crian\u00e7a cair, <strong>PROBLEMA \u00c9 SEU<\/strong>!&#8221;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Uma menina de 17 anos (que tamb\u00e9m chorava todos os dias) levantou da cama depois de uma ces\u00e1ria e caiu. Reclamava de dor todo o tempo. E as enfermeiras s\u00f3 diziam: &#8220;Levanta da cama de novo, ent\u00e3o&#8221;. Uma adolescente, sendo castigada de v\u00e1rias formas poss\u00edveis&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Parto n\u00e3o deveria ser castigo. Parto jamais deveria ser uma experi\u00eancia secreta, um relato perdido numa gaveta. Partos n\u00e3o deveriam ser traum\u00e1ticos, n\u00e3o deveriam ser confusos. <b>Hoje, 8 anos depois, <\/b><strong>tenho um filho\u00a0lindo e saud\u00e1vel<\/strong>, ainda carrego de forma dolorosa essa hist\u00f3ria e gostaria muito de ter tido uma experi\u00eancia diferente para cont\u00e1-la quando ele crescesse. Mas eu n\u00e3o quero mais que meu relato seja secreto. H\u00e1 oito anos atr\u00e1s, me senti impotente, n\u00e3o sabia com quem compartilhar, sentia medo e vergonha. Me senti culpada, me senti humilhada. Felizmente, muita coisa mudou, e muitas mulheres tem criado voz para que novas hist\u00f3rias sejam escritas da melhor maneira poss\u00edvel. Eu acredito que quanto mais mulheres tirarem seus partos do arquivo secreto, mais hist\u00f3rias como essa ou piores podem ser evitadas. E a melhor forma de poder reescrever uma hist\u00f3ria que n\u00e3o deu certo, \u00e9 evitando que outras sejam escritas da mesma forma. Eu n\u00e3o quero mais partos secretos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Gostaria de agradecer ao grupo <strong><a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/groups\/rmubatuba\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Roda de M\u00e3es de Ubatuba<\/a><\/strong>, por conscientizar e orientar cada vez mais muitas mulheres a terem uma boa experi\u00eancia com o parto. O grupo foi o principal incentivo para que eu conseguisse fazer esse post. \u00c9 um projeto lind\u00edssimo e voc\u00eas podem saber mais <strong><a href=\"http:\/\/vimeo.com\/72727403\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">clicando aqui <\/a><\/strong>sobre o v\u00eddeo que eles fizeram sobre a <strong>Semana do Aleitamento Materno<\/strong>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><video width=\"560\" height=\"315\" src=\"http:\/\/www.ebc.com.br\/sites\/default\/files\/null\/violencia_obstetrica_-_a_voz_das_brasileiras_-_youtube.mp4\" type=\"video\/mp4\" controls=\"controls\" preload=\"none\"><object width=\"560\" height=\"315\" classid=\"clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000\" codebase=\"http:\/\/download.macromedia.com\/pub\/shockwave\/cabs\/flash\/swflash.cab#version=6,0,40,0\"><param name=\"src\" value=\"http:\/\/mulhervitrola.com.br\/wp-includes\/js\/tinymce\/plugins\/media\/moxieplayer.swf\" \/><param name=\"flashvars\" value=\"url=http%3A\/\/www.ebc.com.br\/sites\/default\/files\/null\/violencia_obstetrica_-_a_voz_das_brasileiras_-_youtube.mp4&amp;poster=\/wp-admin\/\" \/><param name=\"allowfullscreen\" value=\"true\" \/><param name=\"allowscriptaccess\" value=\"true\" \/><embed width=\"560\" height=\"315\" type=\"application\/x-shockwave-flash\" src=\"http:\/\/mulhervitrola.com.br\/wp-includes\/js\/tinymce\/plugins\/media\/moxieplayer.swf\" flashvars=\"url=http%3A\/\/www.ebc.com.br\/sites\/default\/files\/null\/violencia_obstetrica_-_a_voz_das_brasileiras_-_youtube.mp4&amp;poster=\/wp-admin\/\" allowfullscreen=\"true\" allowscriptaccess=\"true\" \/><\/object><\/video><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong><a href=\"http:\/\/www.ebc.com.br\/infantil\/para-pais\/galeria\/videos\/2013\/09\/violencia-obstetrica-voce-foi-vitima\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Viol\u00eancia obst\u00e9trica: voc\u00ea foi v\u00edtima?<\/a><\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Gostaria tamb\u00e9m de indicar para leitura esse <strong><a href=\"http:\/\/www.ricotanaoderrete.com\/2013\/09\/parem-de-censurar-maternidade.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">lindo post<\/a><\/strong> da Dani, do <strong>Ricota N\u00e3o derrete.<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Relatar o parto sempre me pareceu algo muito complexo. 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