
Se Carrie Bradshaw fez uma escola, dela certamente temos Amanda. Diário de uma Garota que Coleciona Foras (cujo título original em sueco é “Halva Malmö består av killar som dumpat mig“), conta a história de Amanda, uma mulher prestes a completar 31 anos que coleciona dates frustrados, resultando num celibato (romântico) de mais de 10 anos. Amanda é a amiga que é quase monotemática: ela só pensa em ter um relacionamento, certa de não estar desperdiçando uma oportunidade sequer de encontrar o parceiro ideal – inclusive não apenas ignorando as red flags, mas sentando nelas.
Gosto muito de histórias com personagens mais humanos, mas Diário de uma Garota que Coleciona Foras me deu mais contorcionismos causados por flashbacks do que eu gostaria: qualquer pessoa que já tenha se relacionado com um homem esteve ou está sujeito a sandices muito difíceis de digerir, clássicas do universo masculino. Diferente de Carrie, nem a carreira profissional valoriza Amanda, e é compreensível no decorrer da série, enxergar as camadas que a levam a se submeter de forma tão injusta a pessoas que não estão na mesma frequência.

Ao seu redor, tudo parece desmoronar: a relação fragilizada com seu pai, que já construiu uma família com outra mulher; o relacionamento amoroso da irmã, que é perfeito e digno de inveja e sua mãe, uma 60+ que se mantém num relacionamento com um homem que apenas existe e não se doa nem pela metade. Amanda caminha cambaleante, quase sem referências, nem uma amiga sequer para avisar a mudar a rota e mesmo que homens deixem claro do quanto estão indispostos emocionalmente, ela insiste até que venha a humilhação. Cada um está seguindo sua vida, e poucos enxergam Amanda verdadeiramente e seus desmoronamentos, com exceção da sua irmã, sua única e maior confidente, mas que também está lidando com seus próprios monstros.
Batendo na tecla da pressão (principalmente em cima de mulheres) a casar, ter filhos e um relacionamento antes dos 30, não fica difícil entender a fragilidade de Amanda na saga do encontro perfeito em tempos modernos e que tem como ferramenta um app e o anseio por uma notificação no celular. Entre o cômico e o reflexivo, a série carrega um universo que todas nós gostaríamos de evitar, mas nem sempre conseguimos: justamente por sermos imperfeitos, aprendemos que carregar nossa coleção particular de foras é parte de uma experiência necessária em busca do par ideal, mesmo pagando (sem necessidade) um preço alto demais em traumas por isso.
A série que é baseada no livro de Amanda Romare (sem tradução para o português), possui apenas uma temporada até agora e foi lançada em setembro de 2025, e está disponível pela Netflix.
