
Outro dia fiz um post numa rede social sobre o quão pouco se fala sobre a solidão de ser mãe de um adulto. Quando fiquei grávida do meu primeiro filho, era uma época blogs e Orkut (era o que tinha para interagir, além do do “Whatsapp” da época: os falecidos messenger/ICQ). Rapidamente encontrei minha turma, e até hoje é fácil engrenar conversa com qualquer mãe acerca de bebês e crianças, mesmo já sendo para mim, um passado bem distante.
Talvez por ser a filha caçula, eu era muito apegada à minha mãe, mas não vou mentir que em nossa relação houveram alguns hiatos entre a minha adolescência e o início da vida adulta. Hoje em dia me pergunto se minha mãe também sentiu essa solidão materna, mesmo eu sendo a caçula de mais 5 irmãos. Após meus 25 anos, nosso relacionamento retomou a força e passei a encontrá-la mais frequentemente: tínhamos longas conversas, e diferente da época da adolescência, eu aceitava com gosto seu afago, sua presença, que me acalentava, me fazia sentir protegida.
Recentemente li “Monique se Liberta”, livro onde Édouard Louis narra o “renascimento” de sua mãe após por fim em um relacionamento que a aprisionava (entre outras agressões). Ele relembra com arrependimento momentos da adolescência em que repelia sua mãe ou a confrontava, situação que mudou completamente após sua vida adulta e que, junto da leveza que sua mãe passou a lidar com a vida, fez com que se redescobrissem e se tornassem grandes amigos – uma relação distanciada da materno-atenção, onde dois adultos não precisam performar nenhuma posição, pois não há mais nada que os obrigue a isso (exceto as “exigências” sociais).
Quando saio com meu filho, ele ao meu lado, agora muito mais alto que eu, lembro do menino agarrado ao meu braço, aquela complexa fase de Édipo, uma lembrança quase agridoce: tão bom ver ele sendo adulto, admiro sua jornada linear, sua objetividade, mas ainda vejo o menino que apertava suas mãozinhas ao redor do meu colo, seu olhar agil ao me ver em cada cômodo da casa, e meu coração estremece, lutando contra um impulso de proteção, de correr para o passado, um desejo totalmente infrutífero da mente. Agora, qual performance de mãe de adulto eu devo vestir? Descolada? Liberal? Discreta? Conselheira? O medo de existir-mãe (e de não ser!) frequentemente me visita. Meu filho agora é uma obra já exposta de mim: não há mais nada que eu possa fazer a não ser observar ele caminhando sobre a linha fugaz da vida.
Em setembro de 2025, celebrei o vigésimo ano do meu filho, um marco: a mesma idade que eu tinha quando ele nasceu. Já no dia 14 de dezembro 2025, completei o terceiro ano da minha vida sem minha mãe. Essa quase contraposição me empurrou para uma quebra de ordem, já que agora sou uma mãe sem mãe, e também sou uma mãe sem um dos filhos: meu segundo filho, Joaquim, que faleceu em 2011, e fez com que eu movimentasse em mim uma nova forma de lidar com a maternidade, pois eu havia, para muitos, virado alguém suscetível, com uma inclinação para um luto eterno e silencioso. E não falo isso somente com pesar: é uma lembrança, uma memória inevitável, que me faz refletir não somente sobre a efemeridade, mas também no constante renascimento de nossas relações, como Édouard e Monique: o renascimento que vai exigir de nós abraçarmos não somente o sentimento de evolução, mas também de partida.
Relacionado
Descubra mais sobre Blog da Mulher Vitrola
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

